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Bactérias que causam enfarte
01.02.18
Pesquisa

Bactérias que causam enfarte

Pesquisadores comprovaram que infecções do sangue por bactérias podem causar lesões vasculares que aumentam depósitos de gordura nas artérias 

Após dois anos de pesquisa, o Instituto do Coração (Incor) descobriu que as bactérias podem estar por trás de muitos casos de enfarte e derrame. Os médicos já desconfiavam que as infecções podiam causar danos ao sistema arterial, mas o Incor, que está completando 25 anos, foi o primeiro a comprovar a tese, isolando pelo menos dois agentes que provocam lesões vasculares. O estudo, conduzido pela diretora do Laboratório de Anatomia Patológica do Incor, Maria de Lourdes Higuchi, abre caminho para novos tratamentos. 

Até aí, a formação dos coágulos, responsáveis pelo bloqueio da circulação era relacionada apenas ao colesterol alto. O estudo do Incor revelou que as bactérias destroem paredes dos vasos, causando inflamações que acumulam colesterol. 

Para José Antonio Ramires, diretor do Incor, a descoberta levará a novas técnicas de prevenção e tratamento. O primeiro desdobramento já aconteceu: sabendo do papel das bactérias no entupimento dos vasos sanguíneos, os pesquisadores do Incor passaram a estudar a hipótese de uma ação semelhante em outras partes do sistema circulatório e descobriram que a estenose (endurecimento por calcificação da válvula aórtica que bombeia o sangue do coração para o resto do corpo) também pode resultar de uma infecção crônica. A doença pode levar à morte e era considerada como um processo natural do envelhecimento. 

Todos os casos analisados até o momento detectaram a presença das bactérias Chlamydia pneumoniae e Mycoplasma pneumoniae, embora desconfie-se que existam outras. "Há uma relação de pelo menos sete agentes infecciosos que podem estar relacionados às placas de aterosclerose", diz Ramires. A clamídia está relacionada a problemas respiratórios, enquanto o micoplasma - a menor das bactérias - era tido como inofensivo. A pesquisadora Maria de Lourdes acredita que elas entram na circulação pelo transporte de gases respiratórios (oxigênio e dióxido de carbono) entre os pulmões e o corpo. 

A descoberta do Incor não elimina o estereótipo do cardíaco em potencial. Ao contrário, afirma Ramires, os atuais fatores de risco, como carga genética, colesterol, obesidade, tabagismo, estresse, diabetes, hipertensão e sedentarismo relacionam-se à infecção, gerando condições para proliferação das bactérias. "Os fumantes têm maiores problemas respiratórios, favorecendo a presença da clamídia, enquanto o micoplasma é a única bactéria que usa colesterol para crescer." 
O fato de as bactérias possuírem ação lenta e o sistema de defesa reagir melhor nos jovens pode explicar a relação entre os problemas cardíacos e os idosos. A expectativa é conseguir identificar a quantidade de bactérias num exame de sangue (anticorpos) e determinar a possibilidade de a pessoa vir a sofrer algum problema cardíaco.

Material de pesquisa

Helba Otoni

www.helbaotoni.com.br

@helbaotoni

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